A esperança dos pobres jamais se frustrará

POBRES papa jubileu anosantoA esperança dos pobres jamais se frustrará

18/11/2019

Estamos quase no final de um ciclo litúrgico. A Liturgia fala-nos com linguagem simbólica e imagens apocalípticas sobre o fim dos tempos. Reflete o momento atual de nossa história cheia de contradições e nos leva a pensar na provisoriedade e fragilidade de nossa existência. Assim chegamos à conclusão de que só Deus é permanente.

Temos nesta hora presente, uma sensação de proximidade de uma catástrofe, às vezes a sensação de que o nosso mundo caminha para o caos. A crise econômica e a natureza devorada pelos interesses econômicos, provocando a incidência de catástrofes naturais e ambientais, calamidades e epidemias ou levando ao colapso de recursos naturais não renováveis. Enquanto cresce assustadoramente o grupo dos que estão na “miséria”.

Os índices da extrema pobreza subiram no Brasil e já soma 13,5 milhões de pessoas sobrevivendo com até R$ 145,00 mensais. Número que vem crescendo desde 2015, invertendo a curva descendente da miséria dos anos anteriores, segundo o IBGE. A miséria atinge principalmente estados do Norte e Nordeste do Brasil, em especial a população preta e parda, sem instrução ou com formação fundamental incompleta.

Quanto às pessoas, as vemos fechadas, desinteressadas das grandes questões, um quadro de indiferença, de apatia, de descomprometimento, de ausência de grandes ideais ou ainda, diante da catastrófica realidade, há quem descarte qualquer possibilidade de mudança. A toda hora, queixa-se dizendo: “o mundo, não tem mais jeito, não adianta mais lutar!” Esse modo derrotista de pensar não faz parte da comunidade de fé. A questão é: A esperança ainda faz sentido?

O profeta Malaquias dá voz à esperança e garante-nos: Deus não nos abandonou; Ele vai intervir no mundo. Mas, é preciso ter consciência de que a intervenção libertadora de Deus não deve ser projetada para o “último dia” do mundo. Ela acontece a cada instante; e nós devemos estar numa espera vigilante e ativa, a fim de sabermos reconhecer e acolher a intervenção salvadora e libertadora de Deus.

Malaquias refere-se na sua profecia (cf. Ml 3,19-20) ao “dia do julgamento” – isto é, ao dia em que o Senhor vai intervir na história, no sentido de destruir o mal e fazer triunfar o bem. Diante do fogo do Senhor, “serão como palha todos os soberbos e ímpios” e o Senhor “não lhes deixará nem raiz nem ramo”; em contrapartida, para os que se mantêm nos caminhos da aliança, “nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas” (nos seus raios).

O profeta não está falando evidentemente do “fim do mundo”. Está se referindo ao dia da intervenção de Deus na história. Trata-se, fundamentalmente, de um apelo à “esperança”: apesar da situação caótica em que estamos, não desanimemos, mantenhamo-nos como os pobres, fiéis ao Senhor, pois Deus vai fazer aparecer um “mundo novo”. Para os cristãos, esta profecia se refere a Jesus: ele é o “Sol de Justiça” que brilha no mundo e que insere a humanidade na dinâmica de um mundo novo – a dinâmica do “Reino”.

O Evangelho (cf. Lc 21,5-19) nos leva com Jesus a Jerusalém, aos arredores do Templo onde as pessoas falavam da sua beleza e isso leva Jesus a anunciar a destruição de Jerusalém: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”. (v. 6) Podemos imaginar o efeito destas palavras sobre os discípulos de Jesus! Contudo, Ele não queria ofender o santuário, mas fazer compreender, a eles e também a nós hoje, que as construções humanas, até as mais sagradas, são passageiras e não se deve pôr nelas a nossa segurança. Quantas certezas presumíveis na nossa vida pensávamos que fossem definitivas e depois revelaram-se efêmeras! Por outro lado, quantos problemas nos pareciam sem solução e depois foram superados!

A história da Igreja é rica de exemplos de pessoas que enfrentaram tribulações e sofrimentos terríveis com serenidade, porque sabiam que estavam firmemente nas mãos de Deus. Permanecer firmes no Senhor, nesta certeza que Ele nunca nos abandona, caminhar na esperança, trabalhar para construir um mundo melhor, não obstante as dificuldades e os acontecimentos tristes que marcam a nossa existência. Os cristãos devem viver este tempo da expectativa da vinda do Senhor como tempo do testemunho e da perseverança: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida” (v. 19).

Em sua Mensagem para este III Dia Mundial dos Pobres, celebrado neste Domingo, o Papa Francisco recordou que “A esperança dos pobres jamais se frustrará”. (Sl 9, 19) Estas palavras disse o Papa, “Expressam uma verdade profunda, que a fé consegue gravar, sobretudo no coração dos mais pobres: a esperança perdida devido às injustiças, aos sofrimentos e à precariedade da vida será restabelecida”.

Ao descrever um quadro que expõe todas as mazelas de iniquidades e injustiças que levam à desumanização o Papa atualiza a responsabilidade com a opção pastoral pelos pobres inscrita, segundo as escrituras, na ação exemplar de Deus em favor dos pobres: “Aquele que «escuta», «intervém», «protege», «defende», «resgata», «salva»… Em suma, um pobre não poderá jamais encontrar Deus indiferente ou silencioso perante a sua oração… O Senhor não abandona a quem o procura e a quantos o invocam; «não esquece o clamor dos pobres» (Sl 9, 13), porque os seus ouvidos estão atentos à sua voz. A esperança do pobre desafia as várias condições de morte, porque sabe que é particularmente amado por Deus e, assim, triunfa sobre o sofrimento e a exclusão.

 

A sua condição de pobreza não lhe tira a dignidade que recebeu do Criador; vive na certeza de que a mesma ser-lhe-á restabelecida plenamente pelo próprio Deus. Ele não fica indiferente à sorte dos seus filhos mais frágeis; pelo contrário, observa as suas fadigas e sofrimentos, para os tomar na sua mão, e dá-lhes força e coragem (cf. Sl 10,14). A esperança do pobre torna-se forte com a certeza de que é acolhido pelo Senhor, n’Ele encontra verdadeira justiça, fica revigorado no coração para continuar a amar (cf. Sl 10, 17).

O Santo Padre indica a atitude que deve mobilizar os cristãos e os serviços da Igreja: “O compromisso dos cristãos, por ocasião deste Dia Mundial e, sobretudo na vida ordinária de cada dia, não consiste apenas em iniciativas de assistência que, embora louváveis e necessárias, devem tender a aumentar em cada um aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade. Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pelos pobres, buscando o seu verdadeiro bem. Não é fácil ser testemunha da esperança cristã no contexto cultural do consumismo e do descarte, sempre propenso a aumentar um bem-estar superficial e efêmero. Requer-se uma mudança de mentalidade para redescobrir o essencial, para encarnar e tornar incisivo o anúncio do Reino de Deus… Os pobres adquirem verdadeira esperança, não quando nos veem gratificados por lhes termos concedido um pouco do nosso tempo, mas quando reconhecem no nosso sacrifício um ato de amor gratuito que não procura recompensa”.

Assim o Papa conclama ao final de sua Mensagem: “A todas as comunidades cristãs e a quantos sentem a exigência de levar esperança e conforto aos pobres, peço que se empenhem para que este Dia Mundial possa reforçar em muitos a vontade de colaborar concretamente para que ninguém se sinta privado da proximidade e da solidariedade. Acompanhem-nos as palavras do profeta que anuncia um futuro diferente: «Para vós, que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas» (Ml 3, 20)”.

Pe. José Assis Pereira Soares

Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus

Acesso Restrito