MEDITAÇÃO XV

Meditação XV

Reze o Salmo 119/118,113-120

Como lectio divina, leia com os olhos e os ouvidos do coração Ex 13,17 – 15,27

1. Os vv. 17-18 do capítulo 13 mostram o Senhor guiando o Seu povo. Sim, o Eterno nos guia, nos conduz nos caminhos da vida; e nos leva por percursos, por traçados que muitas vezes não imaginamos nem compreendemos... É necessário um coração humilde, um coração de pobre, para se deixar guiar pelo Senhor... Só aquele que tem um coração humilde, desapegado, um coração de criança pode realmente deixar-se guiar pelo Senhor. Por isso mesmo, o Salmista suplica: “Ensina-me Teus caminhos, Senhor, e caminharei na Tua verdade; unifica meu coração para temer o Teu Nome” (Sl 86/85,11). Veja, meu Amigo: quem caminha nos caminhos do Senhor vai unificando o coração. Nosso coração é quebrado, espatifado em tantos desejos contraditórios e até pecaminosos. O nosso tesouro está onde está o nosso coração; mas este coração é quebradiço... Somente quando caminhamos nos caminhos traçados pelo Senhor, fazendo a Sua santa vontade, é que curamos o nosso coração de suas quebraduras. Aí, com um coração todo para o Senhor, um coração unificado, poderemos de verdade ser uma adoração para o Deus Um. É isto que Israel teve que aprender e nós devemos aprender a cada dia!

Pense bem: Que coisas dividem o seu coração? Que apegos mantêm você fora do seu coração? Só no Senhor seu coração será unificado e você encontrará a verdadeira paz! Reze o Salmo 86/85, sobretudo o v. 11. Repita-o em voz baixa, movendo os lábios... Repita-o varias vezes!

2. E os vv. 21 e 22? Quanto amor, quanta providência, quanto cuidado do Santo pelo Seu povo!

a) Deus vai adiante do Seu povo. Ele não só indica o caminho: Ele mesmo vai, numa nuvem durante o dia e numa coluna de fogo durante a noite, para luminar... Nas Santas Escrituras, a Nuvem evoca a Presença, a Shekinah do Senhor! Essa Nuvem, essa Presença é o próprio Espírito do Senhor, o Santo Espírito do Deus de Israel! Onde está o Espírito aí está o Senhor! E Ele nos guia, o Senhor nos ilumina e, assim, de dia e de noite, podemos caminhar! Caminhamos nos dias claros e nas noites escuras, prosseguimos quando tudo é claro e podemos compreender bem as coisas; mas, caminhamos também quando a noite envolve a nossa existência... E a belíssima fidelidade, a admirável e consoladora constância do amor de Deus? “Nunca se retirou de diante do povo a coluna de Nuvem durante o dia, nem a coluna de Fogo durante a noite” (13,22). Nuvem, fogo: imagens do Espírito! É assim que, ainda hoje, Deus age conosco, Seu novo Povo: vai sempre à nossa frente, envolve-nos com Sua santa Presença. E não se esqueça: esta Presença é o próprio Espírito do Cristo, esta Presença já estava atuante em cada momento da história de Israel, em cada escrito do Antigo Testamento!

b) Segundo os Santos Padres da Igreja, Deus o Pai é Silêncio, é o Deus invisível, inimaginável, incompreensível, que habita numa luz inacessível. Tudo quanto o Pai revela, já no Antigo Testamento, é o Filho e através do Filho, na força operante do Seu Espírito. Santo Irineu, grande Bispo e teólogo do II século, afirmava: “O que é invisível no Filho é o Pai e o que é visível no Pai é o Filho”. Então, inspirados na Liturgia pascal, podemos rezar:

Senhor Jesus, que na Nuvem luminosa, no deserto, iluminaste o Teu povo,

Por Tua Ressurreição, sê para nós hoje a Luz da Vida!

Pela voz de Moisés, sobre a Montanha, ensinaste ao Teu povo;

Por Tua Ressurreição, sê para nós hoje a Palavra da Vida!

Água jorrada da Rocha, lá no deserto, desalteraste o Teu povo;

Por Tua Ressurreição, concede-nos hoje o Espírito de Vida!

Ao Teu povo faminto, deste a comer o celeste Maná;

Por Tua Ressurreição, sê para nós hoje o Pão da Vida!

3. Releia 14,1-10:

a) O Senhor faz Israel retroceder, voltar... O Senhor endurece o coração do faraó... O Senhor deixa os israelitas numa posição vexaminosa, entre os egípcios e o Mar! Nunca deveríamos nos cansar de contemplar o misterioso modo de agir do Senhor! E a Escritura explica o motivo: “Os egípcios saberão que Eu sou o Senhor” (14,4). Que mistério! Em tudo, o Senhor Deus vai tecendo Seus planos; e tudo, ao fim, servirá para a Sua Glória – e Sua Glória é nossa vida!

b) Lembra do cego de nascença? “’Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?’ Jesus respondeu: ‘Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus!’” (Jo 9,3). Eis: quando vemos as coisas na perspectiva da fé, compreendemos que tudo está nas mãos do Senhor e tudo serve aos Seus propósitos! Crer não é compreender tudo! Crer é entregar-se, é abandonar-se, caminhando como se víssemos o Invisível! Santa Teresa de Jesus dizia ao Senhor Espírito Santo:

“Ó Laço que assim juntais

Duas coisas desiguais,

Não desateis o que atais,

Pois atando força dais

A ter por bem todos os males!”

Sim, com Ele, Espírito de força e de doçura, que sustenta o nosso canto e consola o nosso pranto, até os males se convertem em bem. Basta olhar o mal da Cruz, transformado em bem supremo!

4. Leia atentamente 14,10-12. Observe os seguintes pontos:

a) Os israelitas levantam os olhos e veem o tremendo perigo: os egípcios, que significam escravidão e morte. Têm grande medo. O que fazem? Primeiro clamam ao Senhor! É isto que devemos fazer quando a vida nos coloca diante de desafios, perigos, impossibilidades: “Eu levanto os meus olhos para os montes; de onde pode vir o meu socorro? O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra!” (Sl 120,1). Não esqueça: muitas vezes, a vida nos coloca em situações tremendas, que parecem desesperadas! Feliz de quem sabe levantar os olhos para o Senhor; triste de quem, esquecendo o Altíssimo, mergulha na angústia do desespero, contando somente consigo mesmo e com suas possibilidades. A verdadeira atitude do fiel nas dificuldades aparece de modo muito intenso no Salmo 142/141:

“Olha, Senhor, para a direita e vê:

ninguém mais me reconhece,

nenhum lugar de refúgio,

ninguém que olhe por mim!

Eu grito a Ti, Senhor, e digo:

Tu és meu refúgio,

minha parte na terra dos vivos!

Livra-me dos meus perseguidores,

pois eles são mais fortes do que eu!”

b) Infelizmente, logo após clamar ao Senhor, Israel tira os olhos do Senhor, parece até esquecê-Lo e murmura: começa a reclamar contra Moisés, como se fosse ele quem os tirara do Egito! Esquecem o Senhor! Os israelitas têm um coração velhaco e ingrato! Observe como eles são superficiais: sabem que foi o Eterno quem os tirou do Egito; então, por que reclamam de Moisés? Dizem a Moisés: “Por que nos trataste assim, fazendo-nos sair do Egito?” A murmuração, a reclamação, a crítica nasce do coração incapaz de olhar as coisas em profundidade! A oração de Israel foi superficial: ligeirinho, tiraram os olhos do Senhor e meteram a língua em Moisés!

c) E você, meu Amigo: Sabe calar o coração? Sabe procurar o sentido profundo das coisas que lhe acontecem? Sabe ver a Deus em todas as coisas? Reze o Salmo 4.

d) Veja a atitude de Moisés, um verdadeiro homem de Deus: coloca novamente o povo diante do Senhor: “Não temais; permanecei firmes e vereis o que o Senhor fará hoje para vos salvar! O Senhor combaterá por vós e vós ficareis tranquilos” (vv. 13.14). Está vendo, meu Amigo? Aquele que crê verdadeiramente vive diante do Senhor Deus todos os momentos de sua vida. Todos nós temos a tendência da distração diante de Deus. Aí, distraídos, voltamo-nos para nós mesmos e começamos a ver, pensar, analisar e sentir não mais conforme o Senhor nem à medida do Senhor, mas na nossa própria medida. É isto que Israel tenderá sempre a fazer; é isto que Moisés agora procura corrigir no povo: colocá-lo diante de Deus e comportar-se como quem crê de verdade! O mesmos vai se dar nos vv. 22-25. Leia-os. Israel precisa aprender a ter um coração fiel; e só o Eterno pode dar-lhe um coração assim: “Eu sou o Senhor, Aquele que te restaura!”(v.26).

5. Já lhe disse que a Nuvem é imagem do Espírito de Deus. Esta coluna de Nuvem que se coloca entre os israelitas e os egípcios é luminosa no lado dos hebreus e tenebrosa do lado dos egípcios. É uma imagem muito sugestiva: o Senhor Deus pode iluminar aqueles que O buscam verdadeiramente como pode deixar na treva aqueles que a Ele resistem culpavelmente! Cuide de não ser desatencioso para com o Senhor: o que Ele lhe inspirar, o que Ele sugerir ao seu coração, seja por pessoas ou por outros modos, seja você generoso, confiante, e procure realizar na sua vida; assim, a Presença, a Shekinah do Senhor lhe será luminosa!

6. Agora, um detalhe muito importante: “O Senhor, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez o mar se retirar” (v. 21). Atenção para esta imagem: o misterioso vento enviado pelo Santo fez o mar se abrir para o povo atravessá-lo! Você consegue compreender a imagem? Nascemos escravos de Satanás, o Grão Faraó; o Senhor nos faz atravessar o Mar das águas batismais, soprando sobre elas o Espírito do Cristo ressuscitado. E nós, mergulhados no mar (mergulhar = batizar) e atravessando-o, saímos livres e, então, tornamo-nos membros do Povo santo de Deus, o Novo Povo, que é a Igreja nascida da água e do Espírito (cf. Jo 3,5)! O Batismo é nossa Páscoa, consumada na Eucaristia, na qual comungamos o Cordeiro imolado! Por isso, a Igreja batiza os catecúmenos na Noite santa da Páscoa! Eis os sacramentos pascais: o Batismo e a Eucaristia! Por este motivo, a Liturgia da Igreja pede, no Domingo da Oitava da Páscoa: “Ó Deus, que reacendeis a fé do Vosso povo na renovação da Festa pascal, aumentai em nós a graça que nos destes. E fazei que compreendamos melhor o Batismo que nos lavou, o Espírito que nos deu Vida nova e o Sangue que nos redimiu!” Veja que beleza: lavados nas águas do Mar do Batismo e participando da Eucaristia, Corpo e Sangue do Senhor, recebemos o Seu Espírito Santo de morte e ressurreição e, como membros do Seu Novo Povo, recebemos a Vida nova, a Vida Eterna! É a grande graça da Solenidade pascal: dá-nos a Vida do Cristo Ressuscitado, como novo Povo eleito! Como no Êxodo, e mais que no Êxodo, o Senhor nos salvou no Seu Filho crucificado que, atravessando o mar da morte, entrou na Terra Prometida da Ressurreição à Direita do Pai! O que valeu e vale para Israel, valerá sempre para nós em Cristo: “Naquele dia, o Senhor salvou Israel das mãos dos egípcios, e Israel viu os egípcios mortos à beira-mar. Israel viu a proeza realizada pelo Senhor contra os egípcios. E o povo temeu ao Senhor e creram no Senhor!” (vv. 30s)

7. Reze com a Igreja:

a) Esta parte do Precônio que anuncia a Páscoa, na Noite Santa:

Esta é, Senhor, a noite em que do Egito

retirastes os filhos de Israel.

Transpondo o Mar Vermelho a pé enxuto,

rumo à terra onde corre leite e mel.

Ó noite em que a coluna luminosa

as trevas do pecado dissipou

e aos que creem no Cristo em toda a terra,

em novo Povo eleito congregou!

Ó noite em que Jesus rompeu o Inferno

ao ressurgir da morte, vencedor.

De que nos valeria ter nascido,

se não nos resgatasse Seu amor?

Ó Deus, quão estupenda caridade,

vemos no Vosso gesto fulgurar.

Não hesitais em dar o próprio Filho

para a culpa dos servos resgatar.

Pois esta noite lava todo o crime,

liberta o pecador dos seus grilhões.

Dissipa o ódio e dobra os poderosos,

enche de luz e paz os corações.

Ó noite de alegria verdadeira

que prostra o faraó, e ergue os hebreus,

que une de novo o Céu e a terra inteira,

pondo, na treva humana, a luz de Deus” (Precônio Pascal).

b) Reze o cântico de Moisés, após a passagem do Mar. A Igreja o canta solenemente como Salmo após a terceira leitura da Vigília pascal! Ex 15,118). Depois o cântico de Maria, irmã de Moisés (cf. Ex 15,21). Este cântico é a inspiração para o Magnificat, o cântico da Virgem Maria (cf. Lc 1,46-55): os poderosos dispersos do trono, os ricos despedidos de mãos vazias são faraó e o inteiro Egito! Maria santíssima canta a realização plena da Páscoa de Israel na Páscoa do Cristo-Messias que ela carregava no ventre!

Dom Henrique Soares

DIOCESE DE PALMARES-PE

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