MEDITAÇÃO XIV

Meditação XIV

Reze o Salmo 119/118,105-112

Como lectio divina, leia com os olhos e os ouvidos do coração Ex 12,29 – 13,16

1. “No meio da noite, o Senhor feriu todos os primogênitos na terra do Egito” (12.29). Não deixa de ser impactante esta afirmação. O que quer que tenha havido historicamente, o fato é que as Escrituras dizem que o Senhor feriu, o Senhor tirou a vida dos primogênitos, até mesmo de crianças inocentes...

a) Poderíamos procurar tantas explicações para este procedimento do Altíssimo; mas, aqui, a palavra que mais calha é “mistério”. Deus nos ultrapassa! Sabemos que Ele é o Vivente e o Vivificante; sabemos que Ele ama todas as Suas criaturas – também os egípcios (Cf. Sb11,24-26). Os próprios judeus afirmam que quando os anjos dos céus cantaram vendo os egípcios mortos, o Senhor os repreendeu dizendo: “Como podeis vos alegrar quando Minhas criaturas perecem?”

b) É importante não deixar passar estes versículos “escandalosos” das Escrituras! Também eles são palavra santa de Deus! E têm algo a nos ensinar: os caminhos do Senhor são misteriosos! Não se brinca com Deus, não se volta às costas ao Senhor impunemente, há consequências no sim e no não que dizemos ao Santo! Estas passagens dolorosas e tremendas, que refletem a ira de Deus, recordam-nos que não é uma brincadeira o nosso caminho diante do Senhor: Ele é Deus, Dele viemos, para Ele vamos, a Ele pertence a nossa vida de modo absoluto e radical, a Ele prestaremos contar da nossa existência, do nosso caminho neste mundo. Na sociedade do politicamente correto, numa cultura - inclusive religiosa – na qual o homem se sente o centro e a medida de tudo, é preciso afirmar decididamente: O Senhor é Deus! Só o Senhor é Deus! Tudo é Dele, por Ele e para Ele; tudo Nele, e só Nele, encontra sentido e consistência! Medite, contemple Eclo 15,11-20.

c) É necessário também compreender que todas as passagens das Escrituras devem ser lidas, compreendidas, interpretadas, vivenciadas à luz do seu centro: Deus é amor; Deus é o Amigo dos homens, Deus é Vivificante, Deus amou tanto o mundo que entregou por ele o Seu Filho único (cf. Jo 3,16)! Este é o centro das Escrituras e tudo nelas deve ser interpretados à luz desse amor eterno (cf. Ef 1,3-23; Cl 1,9-20: nestes textos aparece bem claro como o desígnio do Senhor Deus, desde o princípio, foi, é e será nos salvar através do Cristo)! Como conjugar essas páginas de sangue, morte e ira com esse desígnio de amor? Será sempre problemático para a nossa pobre e limitada compreensão. Isto pertence ao mistério de Deus, aos Seus insondáveis segredos, Ele que é Mistério Santo e impenetrável! Digamos como os judeus: “Bendito sejas Tu, Senhor nosso Deus, que guardas os segredos!” Reze, com piedade e devoção admirada, o Salmo 136/135. Nunca esqueça: todas as passagens das Escrituras devem ser interpretadas à luz do amor de Deus manifestado na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo que, num Espírito Eterno Se entregou por nós ao Pai!

2. “Subiu também com eles uma multidão misturada com ovelhas, gado e muitíssimos animais” (12,38). Juntamente com os israelitas saíram outros grupos semitas, não israelitas, não adoradores do Senhor Deus. Esses também eram servos no Egito. Eles vão entrar no Povo de Israel, farão parte da Aliança com o Senhor quando Josué, antes da entrada na Terra Prometida propuser a Aliança também a eles (cf. Js 24,1-28). Desde já aparece que, se por um lado, a Aliança do Senhor é com o Seu povo, formado dos descendentes de Abraão segundo a carne, por outro lado, todo aquele que aderir ao Senhor e quiser entrar na Aliança, passará a ser membro pleno do Povo de Deus – veja um pouco mais adiante como estrangeiros e escravos poderão celebrar a Páscoa, desde que sejam circuncidados e entre no Povo de Deus (Cf 12,43-49)! Aqui já se tem o germe da novo e eterna Aliança: o Senhor olha o coração; Ele deseja a salvação de todos e todo aquele que sinceramente quiser servi-Lo será por Ele acolhido. É importante nunca esquecer que o desejo de Deus é que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Por outro lado, é preciso converter-se ao Senhor e, circuncidando-se, entrar no Seu povo! Ainda agora, na Nova Aliança, é assim: pela fé em Jesus como Cristo e Senhor, recebemos o Batismo e podemos participar do banquete pascal no Sacrifício eucarístico: “Batizados num só Espírito para formarmos um só Corpo” (Cf. 1Cor 12,13) no Cristo nosso Deus! Reze o Salmo 98/97, louvando o Senhor de todos os povos, de toda a terra!

3. “Esta noite, durante a qual o Senhor velou para os fazer sair do Egito deve ser para todos os israelitas uma vigília para o Senhor, em todas as suas gerações” (12,42).

a) Coisa linda! O Senhor, como um Deus guerreiro, velou carinhosamente durante toda a noite para fazer o Seu povo amado sair do Egito! Ainda hoje o Senhor continua velando pelos Seus fiéis, pelo Seu povo: “Não dorme nem cochila o Guarda de Israel!” (Sl 121/120,4). Ele vela por mim, vela por você! Reze o Salmo 91/90.

b) Assim como o Senhor velou por Israel na Páscoa e velou na noite terrível do Sábado Santo para o Domingo, para fazer o Seu Cristo atravessar o Mar da Morte, assim, a como o Antigo Povo vela anualmente na Páscoa judaica em honra do Senhor, do mesmo modo, a Igreja, Novo Israel, deve velar na noite da longa Vigília Pascal: as sete leituras da Antiga Aliança, a Epístola, da Nova Aliança, o Evangelho proclamado a Passagem do Senhor saído da Morte: tudo no coração da noite, na luta contra o sono e o cansaço, contra a distração e a dispersão interior... É a humilde e amorosa Vigília do Novo Israel, em honra Daquele que vigiou para arrancar o Seu povo e o Seu Filho amado das garras do Mar tenebroso! Reze, pregustando o que a Igreja rezará no precônio da Vigília Solene em honra do Senhor na Santa noite Pascal:

“Ó noite em que a coluna luminosa

As trevas do pecado dissipou,

E aos que creem no Cristo em toda a terra

Em novo povo eleito congregou!

Ó noite em que Jesus rompeu o Inferno,

Ao ressurgir da morte vencedor:

De que nos valeria ter nascido

Se não nos resgatasse em Seu amor?

Ó Deus, quão estupenda caridade

Vemos no Vosso gesto fulgurar:

Não hesitais em dar o próprio Filho

Para a culpa dos servos resgatar!

Pois esta noite lava todo o crime,

Liberta o pecador dos seus grilhões;

Dissipa o ódio e dobra os poderosos,

Enche de luz e paz os corações.

Ó noite de alegria verdadeira,

Que prostra o faraó e ergue os hebreus,

Que une de novo ao Céu a terra inteira

Pondo treva humana a luz de Deus.

Na raça desta noite o Vosso povo

Acende um sacrifício de louvor;

Acolhei, ó Pai Santo, o fogo novo:

Não perde, ao dividir-se, o seu fulgor.

O círio que acendeu as nossas velas

Possa esta noite toda fulgurar;

Misture sua luz à das estrelas,

Cintile quando o dia despontar”.

4. Mais dois aspectos que merecem a nossa atenção:

a) “Não quebrareis osso algum” do cordeiro pascal (12,46). Como não recordar da observação do Evangelho de São João? Leia Jo 19,31-38. A mensagem é clara: Jesus é o verdadeiro Cordeiro pascal, agora oferecido em sacrifico na cruz, Cordeiro pelo qual o “Israel de Deus” (Gl 6,16) deixa, geração após geração, o Egito do pecado, atravessa continuamente as águas sagradas do Batismo e chega à liberdade dos filhos de Deus em Cristo Jesus!

b) Deus manda que se Lhe consagrem todos os primogênitos, todos os machos que abrem o útero materno. Ele poupou os primogênitos de Israel para que fossem Seus (Cf. 13,1s). Por isso mesmo a insistência dos evangelhos sobre o fato de Jesus ser o primogênito de Maria (Cf. Lc 2,7.22-24): Ele é todo do Pai, todo para o Pai! Como primogênito, Ele foi apresentado e oferecido no Templo por José e pela Virgem (Cf. Lc 2,22-32); e a oferta foi aceita (Lc. 2,33-35; Jo 19,25-30). É admirável como todo o Antigo Testamento se cumpre no Cristo Senhor!

5. Reze, louvando, o Salmo 145/144.

Dom Henrique Soares

Acesso Restrito